Professor da FAV realiza exposição individual no Centro Cultural SESI MINAS
Em Terra: suspensão, impregnação, submersão, o artista e professor da UFG, Glayson Arcanjo investiga as relações entre matéria, território e transformação
A exposição reúne obras produzidas entre 2021 e 2025 em diferentes linguagens, como desenho, fotografia, pintura, objetos, vídeo e instalação. Em todas elas, a terra aparece como ponto de partida: solo, pigmento, paisagem e memória.
A partir de uma aproximação sensível com o Cerrado, o artista observa processos naturais como decomposição, erosão e transformação da matéria. Esses movimentos se tornam gesto artístico e revelam os ciclos que conectam plantas, territórios, corpos e histórias.
Entre coleta, observação e experimentação, as obras convidam o público a perceber o chão que habitamos e as forças invisíveis que atravessam o território.
A mostra, que tem curadoria de Yana Tamayo, integra as atividades do projeto de pesquisa de Glayson Arcanjo intitulado "TERRITÓRIOS DO DESENHO: ARTE E NATUREZA CONTEMPORANEIDADE" (cadastro na PRPI: PI07764-2024) e foi aprovada no Edital de Seleção de Exposições para as Galerias de Arte do SESI Cultura MG e reforçam o interesse do artista e o compromisso da UFG e do SESI com a arte contemporânea e com artistas que investigam as relações entre natureza, cultura e sociedade.
🎨 Terra: suspensão, impregnação, submersão
👤 Glayson Arcanjo
🗓 Visitação até 04 de maio
📌 Galeria de Arte do Centro Cultural SESIMINAS Uberaba
🎟 Entrada gratuita
Texto da curadora
por Yana Tamayo
Suspender o chão
Terra: suspensão, impregnação, submersão apresenta no Espaço Cultural SESIMINAS de Uberaba um conjunto de trabalhos recentes do artista mineiro radicado em Goiânia Glayson Arcanjo. Artista visual e professor da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, Arcanjo desenvolve sua prática articulando criação artística, pesquisa e ensino ao realizar exposições, investigar processos de criação e lecionar disciplinas ligadas ao desenho e à experimentação poética.
A exposição reúne obras produzidas entre 2021 e 2025. Desenvolvidos em diferentes linguagens — desenho, fotografia, pintura, vídeo e instalação — os trabalhos propõem uma aproximação sensível entre o corpo humano, o solo, o tempo e a materialidade que compõe a paisagem. Neles, o território que habita torna-se campo de observação e experimentação: um lugar onde o tempo age sobre todas as coisas e no qual cada elemento transforma e é transformado pelos outros.
Nesta paisagem recriada por imagens e objetos, processos naturais e ações humanas aparecem entrelaçados. A terra, ao mesmo tempo suporte da vida e objeto de exploração econômica, revela tensões que atravessam o território brasileiro, neste caso, o bioma do Cerrado. Os trabalhos sugerem que a paisagem não é estática: é continuamente alterada por fenômenos geológicos, ciclos orgânicos e atividades produtivas em larga escala. Entre o crescimento das plantas, o escoamento da água, a decomposição da matéria e a intervenção das práticas agroindustriais, emergem marcas que narram disputas ruidosas no mesmo solo.
O desenho ocupa um lugar central nesse processo. Mais do que uma técnica, opera como matriz de pensamento e ferramenta de escuta do mundo. De forma gráfica, pictórica e poética, evidenciam-se a fisicalidade dos processos naturais envolvidos nos trânsitos da matéria. Arcanjo cria imagens que frequentemente transbordam para outras linguagens buscando novas formas de existência para o que vê. O gesto de desenhar torna-se, assim, uma forma de observar, descrever, coletar e experimentar o espaço — uma prática que se aproxima de procedimentos científicos, mas que permanece atravessada pela sensibilidade, imaginação e poesia.
Desde o período de confinamento provocado pela pandemia de Covid-19, o artista passou a dedicar-se com maior intensidade à escuta das agências presentes no ecossistema que o cerca. Essa escuta se dirige, sobretudo, ao solo. O chão deixa de ser apenas superfície para tornar-se espaço de relação. É nele que a vida germina, enraíza-se e se desenvolve; também sobre ele a matéria se decompõe. Assim, processos de decomposição podem ser compreendidos também como recomposição, compostagem ou restituição. A terra guarda em si a memória dos organismos que por ela passaram e das forças que a moldaram. Entre a relação simbiótica que podemos estabelecer com o solo e sua exploração compulsória, revelam-se escalas distintas de transformação.
Parte significativa das obras nasce do contato direto com a materialidade da terra. O artista coleta diferentes amostras de solo, peneira, separa e prepara pigmentos a partir dessas matérias. Cada porção traz consigo tonalidades específicas que carregam indícios da composição mineral e orgânica do lugar de onde vieram. Ao transformar terra em pigmento, Arcanjo transporta fragmentos do território para o campo da linguagem. O pó que por anos permaneceu sedimentado é suspenso, misturado à água e depositado sobre superfícies como papel ou porcelana. Ali, inicia-se um processo que envolve espera, observação e abertura ao acaso. Alguns pigmentos se fixam com intensidade por fricção; outros se desfazem com facilidade. O tempo torna-se colaborador do trabalho, e a imagem emerge como resultado de interações entre forças visíveis e invisíveis.
Ao convidar a natureza a participar ativamente de seus processos, o artista também convoca as narrativas inscritas nos materiais. As diferentes cores da terra indicam histórias silenciosas: maior ou menor presença de água no solo, processos de drenagem mineral, concentração de matéria orgânica. Cada tonalidade carrega uma memória geológica, mas também uma memória da paisagem vivida — território
habitado, cultivado, explorado e transformado ao longo do tempo.
Diante dessas obras, somos convidados a refletir sobre nossa própria relação com o chão que habitamos. Pertencemos à terra ou apenas a atravessamos? Como percebemos nossa presença na produção e na transformação desse espaço? De que maneira nossas ações participam dos ciclos que sustentam — ou desgastam — a vida neste grande organismo em mutação?
Ao reorganizar poeticamente elementos e forças que atuam sobre o solo, Glayson Arcanjo nos convida a perceber a interdependência entre todos os seres e matérias que compõem um ecossistema. Seus trabalhos revelam que a paisagem é resultado de inúmeros processos em curso — alguns lentos, quase imperceptíveis; outros violentos e acelerados. Entre suspensão, impregnação e submersão, a terra torna-se imagem, memória e pergunta aberta sobre os modos de coexistir neste mundo compartilhado.
Mais imagens das obras
Fonte: Glayson Arcanjo
Categorias: Notícias FAV Exposição Glayson Arcanjo